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A tal da estatística

Segunda-feira, 13/10/08

Várias coisas mudaram na minha cabeça desde que eu comecei o meu doutorado aqui nos EUA. Em diversos sentidos, a pesquisa feita aqui é muito diferente da pesquisa feita no Brasil. Talvez a muança mais radical que eu tenha sentido foi um shift de uma postura que o Russell Leng chama de classicista para uma postura científica, ou seja, uma mudança de uma ênfase em macro-teorias e história para uma ênfase muito acentuada em pesquisa empírica e a tentativa de elaboração de teorias explicativas de médio alcance.

A face mais nítida dessa mudança é o foco em pesquisa quantitativa. No Brasil, durante minhas duas graduações e meu mestrado, eu tive uma cadeira de introdução à estatística (que não foi muito além da estatística que se aprende no segundo grau), e uma muito breve e ligeira cadeira de metodologia quantitativa, na qual eu fui apresentada ao SPSS, mas nunca fui efetivamente ensinada a aproveitar essa ferramenta. Aqui nos EUA, entretanto, estou na minha segunda disciplina de estatistica avançada (pelo menos para cientistas sociais), e já fui apresentada e estou sendo efetivamente treinada em três programas de analise de dados (além do SPSS, o Stata e o R). Além disso, os professores ainda nos recomendam uma cadeira de metodologia qualitativa, sem contar com os institutos de verão para técnicas avançadas em ambos modelos de pesquisa (ICPSR e CQRM). Mas é nítida a valorização da pesquisa quantitativa, e sobretudo da possibilidade de delinear relações causais de explicação mais nítidas entre fenômenos sociais.

É claro que essa ênfase quantitativista é sim uma herança do positivismo, que ainda respira por essas bandas. E isso foi um choque e tanto no meu primeiro ano, tendo em vista que positivismo é quase palavrão no Brasil. Mas depois desses dois semestres e meio de leitura e discussão, eu preciso admitir que muitas das minhas pré-concepções sobre positivismo, pós-positivismo e pós-estruturalismo (só para nomear alguns paradigmas) mudaram, ou se não mudaram, pelo menos alguns julgamentos estão em suspenso até análise mais detalhada. E antes de me acusarem de ter sofrido lavagem-cerebral, ou de estar acrítica e deslumbrada, por favor, me deixem explicar. A impressão que eu tenho (e eu posso estar sendo injusta, ok?) é que no Brasil o anti-positivismo disfarça falta de rigor metodológico. A gente tem uma dificuldade tremenda de lidar com números no Brasil, e com pesquisa quantitativa, porque na maioria das vezes nós somos muito fracos em questões metodológicas. E daí acabamos apelando para a metodologia qualitativa, não porque ela é menos rigorosa metodologicamente, mas porque é mais fácil esconder ou maquiar falhas de metodologia e buracos de argumentação numa pesquisa qualitativa que em uma quantitativa.

Vejam bem: eu não estou dizendo que quantitativo é melhor que qualitativo. Eu concordo muito com o Gary Goertz e o James Mahoney quando eles afirmam que a diferença dessas metodologias pode ser entendida como diferenças entre culturas de pesquisa. O que eu gostaria de entender é porque a pesquisa quantitativa é tão incipiente no Brasil. Como eu já disse, talvez a minha hipótese inicial seja injusta, mas dada a minha experiência no campo, ela é a mais plausível na minha cabeça.

E por favor, não vamos baixar o nível da discussão e dizer que os americanos são uns bitolados porque ainda estão no positivismo procurando por leis de comportamento social. Isso não é verdade, e qualquer um que se dê o trabalho de ler a discussão metodológica e epistemológica contemporânea aqui nos EUA consegue perceber que isso não é o caso. A busca por relações de causalidade tem muito mais a ver com a tentativa de filtrar o barulho e tentar isolar regularidades (regularidades que muitas vezes o pessoal que critica o positivismo tenta estabelecer do mesmo jeito) e possíveis generalizações dentro de contextos amplos mais específicos (por exemplo, quais são os fatores que levam a ocorrência de guerras civis na segunda metade do século XX?), visando alguma acumulação de conhecimento, do que descobrir leis imutáveis do comportamento social. e quanto mais eu penso nisso, mais eu me pergunto: e por que isso não seria possivel, ou sequer positivo? Cada vez eu me convenço que a resposta e sim. E cada vez eu me convenço que essa tentativa e melhor do que o escrutínio infinito por detalhes de casos que não nos dizem muita coisa sobre o funcionamento do mundo, e são razos em qualquer exame metodológico mais detalhado (e sim, incluam minha dissertação de mestrado nesse balaio).

P.S.: Cabe dizer que eu não abandonei nem pretendo abandonar a pesquisa qualitativa. Pelo contrário, tenho uma vontade crescente de casar analise quantitativa com a qualitativa, tendo em vista que elas desempenham funções diferentes, mas igualmente importantes e complementares. Mas sobre mixed-methods approach eu escrevo outro dia.