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O Ministério da Saúde adverte: doutorados podem provocar esnobismo

Terça-feira, 21/10/08

Quem me conhece pode dizer que isso não é novidade, que eu sempre fui assim. Eu entretanto acho que essa condição, se não é oriunda, se aprofundou com o doutorado: quando se trata de discussões sobre política, eu estou cada vez mais impaciente com leigos. E sim, a categoria de leigos inclui todo mundo que não está estudando ou já estudou Ciências Humanas. E não, Direito e Jornalismo não são Ciências Humanas.

É curioso isso. Eu tinha um professor na graduação que costumava brincar dizendo que todo mundo acha que tem um pouco de cientista social em si, e que é muito fácil se sentir autorizado a falar (com suposto domínio sobre o tema) de política e sociedade. Na época, oito anos atrás, eu concordava com ele, mas então semi-leiga que eu era, não me relacionava tão diretamente com a indignação que permeava suas piadas.

Hoje em dia sou eu ecoando esse desespero. Que devido a traços muito particulares da minha personalidade se traduz, sim, em esnobismo. Há algum tempo atraz eu decidi, e tenho cada vez mais me agarrado a essa decisão, que não discuto política com leigo. O que algumas vezes torna a minha (parca) vida social e familiar difícil, tendo em vista que eu sou, na maioria das vezes, diretamente acionada nessas conversas. e o meu entretenimento complicado, tendo em vista que é cada vez mais difícil assistir o “noticiário” e ler jornais sem mandar tudo as favas (honrosas excessões são a Rachel Maddow, o Chris Mathews, a Carla Rodrigues e o Pedro Dória).

O problema todo é que quem estuda e pesquisa Ciências Humanas tem a dimensão da dificuldade que é essa atividade. O quão exaustiva ela é. E que pra falar meia dúzia de coisas que façam um mínimo de sentido sobre a tal da realidade social, é necessário um treinamento pesado e cansativo. E é justamente por ter dimensão desse processo, é muito irritante discutir com pessoas que se auto-intitulam “analistas políticos”, e que não tem o menor refinamento e nenhuma sutileza em suas “analises”. E que transmitem achismos como se verdade fossem, sem por um momento questionar sequer os conceitos mais básicos que estão usando (e eu não quero nem falar sobre a confusão mental que a  maioria das pessoas apresenta em não conseguir distinguir e definir alguns conceitos e premissas fundamentais…).

E dai eu tento me preservar do desespero que é ver a coisa para a qual eu dediquei boa parte da minha vida até o presente momento sendo usada e abusada sem qualquer cerimônia pelos espertinhos de plantão e tenho que levar numa boa. E debater. E ser compreensiva.

Oras bolas, se eu não posso sair por ai advogando, por que qualquer um pode se habilitar a dizer qualquer coisa sobre política e sociedade?

Dessa forma, senhoras e senhores, conversem comigo sobre filmes, livros, música, novelas, o que for. Mas me poupem das suas interpretações e conclusões sobre os rumos do mundo.  Sobre o Putin, o Bush, o Lula, o Hitler e o Gandhi. Sobre o choque de civilizações. Sobre o Welfare State. Sobre a Guerra Fria. Sobre terrorismo e corrupção. Sobre organizações internacionais e os estados falidos da África e da Ásia. Sobre as consequências políticas da última crise econômica. Sobre qualquer coisa que eu possa classificar como “objeto de estudo”.

Me poupem do seu senso comum.

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Quinta-feira, 16/10/08

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Assimilação

Quarta-feira, 15/10/08

Esse semestre eu estou cursando uma cadeira de política comparada cujo tema é nacionalismo e ethnic politics.  Para além do fato de que é o meu tema de escolha, que o professor é genial, e que as leituras são muito interessantes (e resgatam muito das minhas referências da História, Sociologia e Antropologia, que andavam meio sub-aproveitadas), é possível que essa seja a cadeira mais auto-reflexiva que eu cursei nos últimos quatro ou cinco anos. (Uma coisa da qual eu estou cada vez mais convencida é que muitas vezes a escolha de temas de pesquisa não é guiada unicamente por critérios racionais e utilitários. Afinal de contas, para alguém escolher um tema determinado, e se dedicar a ele por uma vida, algum interesse mais remoto, que de alguma maneira motive a pessoa, deve existir. Então talvez por isso essa cadeira seja tão interessante para mim, porque ela é a minha primeira oportunidade de estudo sistemático do tema que eu escolhi, do tema que me motiva… e talvez só agora eu esteja descobrindo muitas das minhas razões mais ulteriores para ter escolhido esse assunto.)

Enfim, a aula de hoje foi sobre assimilação, que pode ser entendida de maneira bem ampla como a adoção voluntária de atributos culturais da sociedade dominante por membros de uma minoria. É óbvio que a maior parte do tempo esse conceito é aplicado para explicar situações de conflito e cooperação no contexto de sociedades multiétnicas, mas a verdade é que lendo e ouvindo e discutindo todas essas situações de migrantes passando por processos de adaptação em sociedades que não são as suas de origem, adquirindo novos traços de comportamento e abandonando hábitos antigos… eu não consigo evitar em pensar na minha experiência aqui nos EUA (minha e do Fabi, aliás), e de projetar algumas coisas para o futuro.

Será que a gente está assimilando? Ou vai eventualmente assimilar? Que essa experiência de morar em outro país deixaria marcas na gente, isso eu já sabia (ou esperava) antes de sair do Brasil. Mas o que me bateu hoje foi um pouco da dimensão desse processo todo… Se conviver com uma cultura diferente da sua significa adaptação, e mais que isso, assimilação, o quanto será que se muda por causa de um doutorado no exterior? Para alem de teoria, metodologia, pesquisa, alguma coisa mais fundamental deve mudar também. Mas o quê?

O quão diferente da Tatiana de 2007 a Tatiana de 2011 vai ser?

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A tal da estatística

Segunda-feira, 13/10/08

Várias coisas mudaram na minha cabeça desde que eu comecei o meu doutorado aqui nos EUA. Em diversos sentidos, a pesquisa feita aqui é muito diferente da pesquisa feita no Brasil. Talvez a muança mais radical que eu tenha sentido foi um shift de uma postura que o Russell Leng chama de classicista para uma postura científica, ou seja, uma mudança de uma ênfase em macro-teorias e história para uma ênfase muito acentuada em pesquisa empírica e a tentativa de elaboração de teorias explicativas de médio alcance.

A face mais nítida dessa mudança é o foco em pesquisa quantitativa. No Brasil, durante minhas duas graduações e meu mestrado, eu tive uma cadeira de introdução à estatística (que não foi muito além da estatística que se aprende no segundo grau), e uma muito breve e ligeira cadeira de metodologia quantitativa, na qual eu fui apresentada ao SPSS, mas nunca fui efetivamente ensinada a aproveitar essa ferramenta. Aqui nos EUA, entretanto, estou na minha segunda disciplina de estatistica avançada (pelo menos para cientistas sociais), e já fui apresentada e estou sendo efetivamente treinada em três programas de analise de dados (além do SPSS, o Stata e o R). Além disso, os professores ainda nos recomendam uma cadeira de metodologia qualitativa, sem contar com os institutos de verão para técnicas avançadas em ambos modelos de pesquisa (ICPSR e CQRM). Mas é nítida a valorização da pesquisa quantitativa, e sobretudo da possibilidade de delinear relações causais de explicação mais nítidas entre fenômenos sociais.

É claro que essa ênfase quantitativista é sim uma herança do positivismo, que ainda respira por essas bandas. E isso foi um choque e tanto no meu primeiro ano, tendo em vista que positivismo é quase palavrão no Brasil. Mas depois desses dois semestres e meio de leitura e discussão, eu preciso admitir que muitas das minhas pré-concepções sobre positivismo, pós-positivismo e pós-estruturalismo (só para nomear alguns paradigmas) mudaram, ou se não mudaram, pelo menos alguns julgamentos estão em suspenso até análise mais detalhada. E antes de me acusarem de ter sofrido lavagem-cerebral, ou de estar acrítica e deslumbrada, por favor, me deixem explicar. A impressão que eu tenho (e eu posso estar sendo injusta, ok?) é que no Brasil o anti-positivismo disfarça falta de rigor metodológico. A gente tem uma dificuldade tremenda de lidar com números no Brasil, e com pesquisa quantitativa, porque na maioria das vezes nós somos muito fracos em questões metodológicas. E daí acabamos apelando para a metodologia qualitativa, não porque ela é menos rigorosa metodologicamente, mas porque é mais fácil esconder ou maquiar falhas de metodologia e buracos de argumentação numa pesquisa qualitativa que em uma quantitativa.

Vejam bem: eu não estou dizendo que quantitativo é melhor que qualitativo. Eu concordo muito com o Gary Goertz e o James Mahoney quando eles afirmam que a diferença dessas metodologias pode ser entendida como diferenças entre culturas de pesquisa. O que eu gostaria de entender é porque a pesquisa quantitativa é tão incipiente no Brasil. Como eu já disse, talvez a minha hipótese inicial seja injusta, mas dada a minha experiência no campo, ela é a mais plausível na minha cabeça.

E por favor, não vamos baixar o nível da discussão e dizer que os americanos são uns bitolados porque ainda estão no positivismo procurando por leis de comportamento social. Isso não é verdade, e qualquer um que se dê o trabalho de ler a discussão metodológica e epistemológica contemporânea aqui nos EUA consegue perceber que isso não é o caso. A busca por relações de causalidade tem muito mais a ver com a tentativa de filtrar o barulho e tentar isolar regularidades (regularidades que muitas vezes o pessoal que critica o positivismo tenta estabelecer do mesmo jeito) e possíveis generalizações dentro de contextos amplos mais específicos (por exemplo, quais são os fatores que levam a ocorrência de guerras civis na segunda metade do século XX?), visando alguma acumulação de conhecimento, do que descobrir leis imutáveis do comportamento social. e quanto mais eu penso nisso, mais eu me pergunto: e por que isso não seria possivel, ou sequer positivo? Cada vez eu me convenço que a resposta e sim. E cada vez eu me convenço que essa tentativa e melhor do que o escrutínio infinito por detalhes de casos que não nos dizem muita coisa sobre o funcionamento do mundo, e são razos em qualquer exame metodológico mais detalhado (e sim, incluam minha dissertação de mestrado nesse balaio).

P.S.: Cabe dizer que eu não abandonei nem pretendo abandonar a pesquisa qualitativa. Pelo contrário, tenho uma vontade crescente de casar analise quantitativa com a qualitativa, tendo em vista que elas desempenham funções diferentes, mas igualmente importantes e complementares. Mas sobre mixed-methods approach eu escrevo outro dia.

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Nobel de Economia

Segunda-feira, 13/10/08

A Real Academia Sueca anunciou hoje pela manhã o ganhador do prêmio Nobel de economia desse ano: Paul Krugman.

Me parece uma escolha muito acertada, o Krugman é definitivamente um dos economistas mais sensatos e competentes que eu conheço. Sem contar o fato que ele efetivamente consegue conversar com um público mais amplo, o que é sempre um mérito. Tanto seu blog quanto suas colunas no New York Times são dignos de serem acompanhados de perto.

Pensar que eu (e uma geração inteira de estudantes de ciências sociais) aprendi economia lendo o “livrinho” dele. =P