“The social sciences generally, at least on the level of theory, are currently undergoing the uncertainty (and imposed humility) which accompanies deep critical self-examination, to the point of questioning even their own nature and validity.”
Tamahana, Brian Z. The Folly of the “Social Scientific” Concept of Legal Pluralism. Journal of Law and Society. Vol. 20, n.2, Summer 1993.
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e sempre bom lembrar…
Sexta-Feira, 24/10/09
Culturalismo
Quinta-feira, 30/10/08O que é que acontece quando você começa a questionar aquele paradigma que, de alguma maneira, lhe serviu de bússola por muito tempo?
É curioso isso, mas ler o tanto que eu ando lendo tem tido o efeito de mover algumas pedras.
Afinal de contas, cultura explica alguma coisa? Ou acaba sendo uma (não-)explicação imobilista e determinista, que no final das contas acaba dizendo que as coisas são assim porque as coisas são assim?
Eu sei, eu sei, essa pergunta é muito radical e não considera as sutilezas de uma possivel explicação culturalista. É só que fazia muito tempo (eu colocaria uns 5 anos aí) que eu não questionava tanto os meus pressupostos teóricos e epistemológicos.
O que é o estudo, não é mesmo, minha gente?

O Ministério da Saúde adverte: doutorados podem provocar esnobismo
Terça-feira, 21/10/08Quem me conhece pode dizer que isso não é novidade, que eu sempre fui assim. Eu entretanto acho que essa condição, se não é oriunda, se aprofundou com o doutorado: quando se trata de discussões sobre política, eu estou cada vez mais impaciente com leigos. E sim, a categoria de leigos inclui todo mundo que não está estudando ou já estudou Ciências Humanas. E não, Direito e Jornalismo não são Ciências Humanas.
É curioso isso. Eu tinha um professor na graduação que costumava brincar dizendo que todo mundo acha que tem um pouco de cientista social em si, e que é muito fácil se sentir autorizado a falar (com suposto domínio sobre o tema) de política e sociedade. Na época, oito anos atrás, eu concordava com ele, mas então semi-leiga que eu era, não me relacionava tão diretamente com a indignação que permeava suas piadas.
Hoje em dia sou eu ecoando esse desespero. Que devido a traços muito particulares da minha personalidade se traduz, sim, em esnobismo. Há algum tempo atraz eu decidi, e tenho cada vez mais me agarrado a essa decisão, que não discuto política com leigo. O que algumas vezes torna a minha (parca) vida social e familiar difícil, tendo em vista que eu sou, na maioria das vezes, diretamente acionada nessas conversas. e o meu entretenimento complicado, tendo em vista que é cada vez mais difícil assistir o “noticiário” e ler jornais sem mandar tudo as favas (honrosas excessões são a Rachel Maddow, o Chris Mathews, a Carla Rodrigues e o Pedro Dória).
O problema todo é que quem estuda e pesquisa Ciências Humanas tem a dimensão da dificuldade que é essa atividade. O quão exaustiva ela é. E que pra falar meia dúzia de coisas que façam um mínimo de sentido sobre a tal da realidade social, é necessário um treinamento pesado e cansativo. E é justamente por ter dimensão desse processo, é muito irritante discutir com pessoas que se auto-intitulam “analistas políticos”, e que não tem o menor refinamento e nenhuma sutileza em suas “analises”. E que transmitem achismos como se verdade fossem, sem por um momento questionar sequer os conceitos mais básicos que estão usando (e eu não quero nem falar sobre a confusão mental que a maioria das pessoas apresenta em não conseguir distinguir e definir alguns conceitos e premissas fundamentais…).
E dai eu tento me preservar do desespero que é ver a coisa para a qual eu dediquei boa parte da minha vida até o presente momento sendo usada e abusada sem qualquer cerimônia pelos espertinhos de plantão e tenho que levar numa boa. E debater. E ser compreensiva.
Oras bolas, se eu não posso sair por ai advogando, por que qualquer um pode se habilitar a dizer qualquer coisa sobre política e sociedade?
Dessa forma, senhoras e senhores, conversem comigo sobre filmes, livros, música, novelas, o que for. Mas me poupem das suas interpretações e conclusões sobre os rumos do mundo. Sobre o Putin, o Bush, o Lula, o Hitler e o Gandhi. Sobre o choque de civilizações. Sobre o Welfare State. Sobre a Guerra Fria. Sobre terrorismo e corrupção. Sobre organizações internacionais e os estados falidos da África e da Ásia. Sobre as consequências políticas da última crise econômica. Sobre qualquer coisa que eu possa classificar como “objeto de estudo”.
Me poupem do seu senso comum.

Assimilação
Quarta-feira, 15/10/08Esse semestre eu estou cursando uma cadeira de política comparada cujo tema é nacionalismo e ethnic politics. Para além do fato de que é o meu tema de escolha, que o professor é genial, e que as leituras são muito interessantes (e resgatam muito das minhas referências da História, Sociologia e Antropologia, que andavam meio sub-aproveitadas), é possível que essa seja a cadeira mais auto-reflexiva que eu cursei nos últimos quatro ou cinco anos. (Uma coisa da qual eu estou cada vez mais convencida é que muitas vezes a escolha de temas de pesquisa não é guiada unicamente por critérios racionais e utilitários. Afinal de contas, para alguém escolher um tema determinado, e se dedicar a ele por uma vida, algum interesse mais remoto, que de alguma maneira motive a pessoa, deve existir. Então talvez por isso essa cadeira seja tão interessante para mim, porque ela é a minha primeira oportunidade de estudo sistemático do tema que eu escolhi, do tema que me motiva… e talvez só agora eu esteja descobrindo muitas das minhas razões mais ulteriores para ter escolhido esse assunto.)
Enfim, a aula de hoje foi sobre assimilação, que pode ser entendida de maneira bem ampla como a adoção voluntária de atributos culturais da sociedade dominante por membros de uma minoria. É óbvio que a maior parte do tempo esse conceito é aplicado para explicar situações de conflito e cooperação no contexto de sociedades multiétnicas, mas a verdade é que lendo e ouvindo e discutindo todas essas situações de migrantes passando por processos de adaptação em sociedades que não são as suas de origem, adquirindo novos traços de comportamento e abandonando hábitos antigos… eu não consigo evitar em pensar na minha experiência aqui nos EUA (minha e do Fabi, aliás), e de projetar algumas coisas para o futuro.
Será que a gente está assimilando? Ou vai eventualmente assimilar? Que essa experiência de morar em outro país deixaria marcas na gente, isso eu já sabia (ou esperava) antes de sair do Brasil. Mas o que me bateu hoje foi um pouco da dimensão desse processo todo… Se conviver com uma cultura diferente da sua significa adaptação, e mais que isso, assimilação, o quanto será que se muda por causa de um doutorado no exterior? Para alem de teoria, metodologia, pesquisa, alguma coisa mais fundamental deve mudar também. Mas o quê?
O quão diferente da Tatiana de 2007 a Tatiana de 2011 vai ser?