“The social sciences generally, at least on the level of theory, are currently undergoing the uncertainty (and imposed humility) which accompanies deep critical self-examination, to the point of questioning even their own nature and validity.”
Tamahana, Brian Z. The Folly of the “Social Scientific” Concept of Legal Pluralism. Journal of Law and Society. Vol. 20, n.2, Summer 1993.
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e sempre bom lembrar…
Sexta-Feira, 24/10/09
A tal da estatística
Segunda-feira, 13/10/08Várias coisas mudaram na minha cabeça desde que eu comecei o meu doutorado aqui nos EUA. Em diversos sentidos, a pesquisa feita aqui é muito diferente da pesquisa feita no Brasil. Talvez a muança mais radical que eu tenha sentido foi um shift de uma postura que o Russell Leng chama de classicista para uma postura científica, ou seja, uma mudança de uma ênfase em macro-teorias e história para uma ênfase muito acentuada em pesquisa empírica e a tentativa de elaboração de teorias explicativas de médio alcance.
A face mais nítida dessa mudança é o foco em pesquisa quantitativa. No Brasil, durante minhas duas graduações e meu mestrado, eu tive uma cadeira de introdução à estatística (que não foi muito além da estatística que se aprende no segundo grau), e uma muito breve e ligeira cadeira de metodologia quantitativa, na qual eu fui apresentada ao SPSS, mas nunca fui efetivamente ensinada a aproveitar essa ferramenta. Aqui nos EUA, entretanto, estou na minha segunda disciplina de estatistica avançada (pelo menos para cientistas sociais), e já fui apresentada e estou sendo efetivamente treinada em três programas de analise de dados (além do SPSS, o Stata e o R). Além disso, os professores ainda nos recomendam uma cadeira de metodologia qualitativa, sem contar com os institutos de verão para técnicas avançadas em ambos modelos de pesquisa (ICPSR e CQRM). Mas é nítida a valorização da pesquisa quantitativa, e sobretudo da possibilidade de delinear relações causais de explicação mais nítidas entre fenômenos sociais.
É claro que essa ênfase quantitativista é sim uma herança do positivismo, que ainda respira por essas bandas. E isso foi um choque e tanto no meu primeiro ano, tendo em vista que positivismo é quase palavrão no Brasil. Mas depois desses dois semestres e meio de leitura e discussão, eu preciso admitir que muitas das minhas pré-concepções sobre positivismo, pós-positivismo e pós-estruturalismo (só para nomear alguns paradigmas) mudaram, ou se não mudaram, pelo menos alguns julgamentos estão em suspenso até análise mais detalhada. E antes de me acusarem de ter sofrido lavagem-cerebral, ou de estar acrítica e deslumbrada, por favor, me deixem explicar. A impressão que eu tenho (e eu posso estar sendo injusta, ok?) é que no Brasil o anti-positivismo disfarça falta de rigor metodológico. A gente tem uma dificuldade tremenda de lidar com números no Brasil, e com pesquisa quantitativa, porque na maioria das vezes nós somos muito fracos em questões metodológicas. E daí acabamos apelando para a metodologia qualitativa, não porque ela é menos rigorosa metodologicamente, mas porque é mais fácil esconder ou maquiar falhas de metodologia e buracos de argumentação numa pesquisa qualitativa que em uma quantitativa.
Vejam bem: eu não estou dizendo que quantitativo é melhor que qualitativo. Eu concordo muito com o Gary Goertz e o James Mahoney quando eles afirmam que a diferença dessas metodologias pode ser entendida como diferenças entre culturas de pesquisa. O que eu gostaria de entender é porque a pesquisa quantitativa é tão incipiente no Brasil. Como eu já disse, talvez a minha hipótese inicial seja injusta, mas dada a minha experiência no campo, ela é a mais plausível na minha cabeça.
E por favor, não vamos baixar o nível da discussão e dizer que os americanos são uns bitolados porque ainda estão no positivismo procurando por leis de comportamento social. Isso não é verdade, e qualquer um que se dê o trabalho de ler a discussão metodológica e epistemológica contemporânea aqui nos EUA consegue perceber que isso não é o caso. A busca por relações de causalidade tem muito mais a ver com a tentativa de filtrar o barulho e tentar isolar regularidades (regularidades que muitas vezes o pessoal que critica o positivismo tenta estabelecer do mesmo jeito) e possíveis generalizações dentro de contextos amplos mais específicos (por exemplo, quais são os fatores que levam a ocorrência de guerras civis na segunda metade do século XX?), visando alguma acumulação de conhecimento, do que descobrir leis imutáveis do comportamento social. e quanto mais eu penso nisso, mais eu me pergunto: e por que isso não seria possivel, ou sequer positivo? Cada vez eu me convenço que a resposta e sim. E cada vez eu me convenço que essa tentativa e melhor do que o escrutínio infinito por detalhes de casos que não nos dizem muita coisa sobre o funcionamento do mundo, e são razos em qualquer exame metodológico mais detalhado (e sim, incluam minha dissertação de mestrado nesse balaio).
P.S.: Cabe dizer que eu não abandonei nem pretendo abandonar a pesquisa qualitativa. Pelo contrário, tenho uma vontade crescente de casar analise quantitativa com a qualitativa, tendo em vista que elas desempenham funções diferentes, mas igualmente importantes e complementares. Mas sobre mixed-methods approach eu escrevo outro dia.
