Arquivo da categoria ‘Epistemologia’

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e sempre bom lembrar…

Sexta-Feira, 24/10/09

“The social sciences generally, at least on the level of theory, are currently undergoing the uncertainty (and imposed humility) which accompanies deep critical self-examination, to the point of questioning even their own nature and validity.”

Tamahana, Brian Z. The Folly of the “Social Scientific” Concept of Legal Pluralism. Journal of Law and Society. Vol. 20, n.2, Summer 1993.

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Lanternas

Quinta-feira, 29/10/09

A Tatiana mencionou comigo que talvez fosse uma boa idéia eu participar aqui neste blog, já que a gente divide a nossa vida acadêmica, e parte das questões que eu converso com ela acabam aqui. Talvez fosse também o caso de eu colocar a minha perspectiva, que é a perspectiva de alguém que trabalha com filosofia, neste espaço.

Eu fiquei um bom tempo pensando sobre o que eu deveria escrever aqui, e neste início de ano e de semestre a questão que tem me perturbado mais são as formas de apropriação do discurso filosófico – específicamente das questões epistemológicas. Particularmente, eu gosto de discutir com todo mundo. Seja o motorista da van, o maluquinho na rua, o paranóico no mcdonnalds, a garçonete new-age do restaurante universitário… Todos estes tipos que a gente encontra aqui nos Estados Unidos, e sempre tem alguma coisa para te contar que eles viram no History Channel e que vai, com certeza, mudar o rumo da tua pesquisa.  Eu não me preocupo com o rigor epistemológico destes caras, eu gosto de ouvir eles, as vezes o caipira que dirige a van tem mais coisas para te falar sobre os Estados Unidos do que o Weber – ei, não se enganem, o Weber falou com uns caras parecidos com estes caipiras!

Por outro lado, existe uma coisa no ambiente acadêmico que eu acho importante, especialmente para quem trabalha na academia: se chama “se fazer entender”. Dia desses, eu estava trabalhando em um artigo, e eu comentei com a Tatiana que o artigo era interessante: tratava-se de uma tese bastante incomum sobre o trabalho de um determinado autor, tese esta com a qual eu inclusive discordava, mas que poderia ser colocada no ar, deveria ser colocada no ar inclusive, para poder ser devidamente contra-argumentada.  O artigo, no entanto, tinha um problema persistente: ele era ilegível para qualquer um que não fosse íntimo do trabalho do autor sendo ali discutido.

A Tatiana argumentou comigo que isto não era um “probleminha”, era uma questão de princípio: não dá para aceitar religião. A coisa tem que ser legível para qualquer um. Espertamente, ela usou como exemplo o texto mais bem construído, técnicamente, que se tem notícia: a introdução da crítica da razão pura.

Chegando na introdução da crítica da razão pura, tu podes ter diversas dúvidas sobre a validade dos argumentos ali apresentados. Tu pode demorar um certo tempo para entender tudo que está em jogo ali. Talvez toda vez que tu leia, tu ache coisas interessantes que tu não tenhas achado antes. No entanto, mesmo que tu nunca tenha lido Kant antes, mesmo que seja o primeiro texto de filosofia que tu leu na tua vida, com algum esforço tu vais entender algo do que está escrito ali. Sobretudo, o autor queria ser entendido. Inclusive por quem nunca tinha lido ele antes.

Talvez o querer ser entendido seja a principal diferença entre alguém que trabalha nas humanas, na academia, e um literário. James Joyce não precisava ser entendido, nenhum poeta precisa ser entendido. Talvez ele queira ser entendido, mas ele não precisa disto.  A natureza do trabalho acadêmico, no entanto, é de divisão, de troca de idéias, de transformação e incorporação de influências. Só que isso não é um trabalho muito fácil de ser feito.

Me preocupa uma certa festividade literária no nosso meio. É ótimo tu ser um bom escritor, tu usares isso para tua vantagem quando tu escreves textos técnicos: Sartre e Weber eram escritores magníficos, e nem por isso se escondiam atrás desta ou aquela hipérbole.  O problema é quando tu solta a mão na metáfora e esquece que tu também tem que se fazer entender. Existe uma tendência quase autista nas humanas de pegar os elementos mais abstratos, mais crípticos, de determinados autores ou escolas, e ficar repetindo até a exaustão certos conceitos, como mantras. Daí nascem pesquisadores com três anos de pesquisa acadêmica, escrevendo “aforismas”. Existe uma falta de curiosidade, um comodismo e conformismo que me parecem extremamente anti-acadêmicos nestas posturas. Porquê ao usar o conceito-chave, a palavrinha mágica, o que se faz é excluir o contra-ponto, é dizer “se tu não aceitas este conceito, tu aindas não chegou no meu nível de compreensão, então não vou nem falar contigo”, ou “as minhas metáforas são sentidas como o sentimento que se sente no sentido da seta que (sem)te do ar que respira o ser”.  E espera-se que alguém possa responder isso?

Voltando ao trabalho em questão. Eu e a Tatiana passamos um bom tempo discutindo isso, porquê a Tatiana argumentava que um texto hermético, fechado para os não-iniciados, não deveria ser publicado. Eu não estava tão certo disso. Talvez até isso tenha que ter exposição, nem que seja para expor a hermeticidade do texto – é uma opção do autor, ele que vá viver com ela depois.

Mas mesmo hermeticidade é diferente de incompreensão. Todos os meios acadêmicos tem seus textos herméticos, são os textos publicados nos Journals, para apreciação dos próprios colegas – os textos que acabam como peso de papel ou infernizando a vida dos bolsistas de doutorado que tem que traduzir aquilo para os alunos da graduação. Nas sociais, consigo pensar em Parsons e Luhmann são exemplos de textos extremamente fechados para os não-iniciados. Na filosofia, a metafísica, é um assunto que em geral é complicado de ser entendido por quem não tem alguma leitura. Mas mesmo os textos herméticos, eventualmente, podem ser entendidos – e nem sempre eles pedem a aderência ao sistema ou o “salto” quase religioso de dizer “ah, sim, eu SINTO a sua metáfora”.

O meu problema é que non-sense passe por complexidade, e que complexidade seja desculpa para preguiça intelectual. Já vi muitos textos complexos virarem verdadeiras colchas de retalhos nas mãos de pessoas que até poderiam ter boas intenções, mas que acabaram transformando autores que diziam “A” em autores que dizem “B” por pura preguiça intelectual ou falta de rigor (o que dá no mesmo, convenhamos).

No fim das contas, existe um compromisso da modernidade que me parece um compromisso muito positivo, que é o compromisso pelo fazer sentido, pelo procurar o entendimento. Não como em uma chantagem, não o “entendimento nos meus termos”, mas simplesmente o diálogo de idéias que não implica em um certo tipo de arrogância intelectual. Tudo bem, existem coisas que precisam de mais tempo para serem ditas, que são interessantes demais para serem colocadas de forma óbvia. Todos nós podemos concordar com isso. Não estou defendendo uma banalização da discussão acadêmica, pelo contrário.

Mas sinto que ainda que por vezes a hermeticidade seja necessária, é imprescindível que a gente aponte quando o hermético só esconde o banal em roupas de marca.

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A tal da estatística

Segunda-feira, 13/10/08

Várias coisas mudaram na minha cabeça desde que eu comecei o meu doutorado aqui nos EUA. Em diversos sentidos, a pesquisa feita aqui é muito diferente da pesquisa feita no Brasil. Talvez a muança mais radical que eu tenha sentido foi um shift de uma postura que o Russell Leng chama de classicista para uma postura científica, ou seja, uma mudança de uma ênfase em macro-teorias e história para uma ênfase muito acentuada em pesquisa empírica e a tentativa de elaboração de teorias explicativas de médio alcance.

A face mais nítida dessa mudança é o foco em pesquisa quantitativa. No Brasil, durante minhas duas graduações e meu mestrado, eu tive uma cadeira de introdução à estatística (que não foi muito além da estatística que se aprende no segundo grau), e uma muito breve e ligeira cadeira de metodologia quantitativa, na qual eu fui apresentada ao SPSS, mas nunca fui efetivamente ensinada a aproveitar essa ferramenta. Aqui nos EUA, entretanto, estou na minha segunda disciplina de estatistica avançada (pelo menos para cientistas sociais), e já fui apresentada e estou sendo efetivamente treinada em três programas de analise de dados (além do SPSS, o Stata e o R). Além disso, os professores ainda nos recomendam uma cadeira de metodologia qualitativa, sem contar com os institutos de verão para técnicas avançadas em ambos modelos de pesquisa (ICPSR e CQRM). Mas é nítida a valorização da pesquisa quantitativa, e sobretudo da possibilidade de delinear relações causais de explicação mais nítidas entre fenômenos sociais.

É claro que essa ênfase quantitativista é sim uma herança do positivismo, que ainda respira por essas bandas. E isso foi um choque e tanto no meu primeiro ano, tendo em vista que positivismo é quase palavrão no Brasil. Mas depois desses dois semestres e meio de leitura e discussão, eu preciso admitir que muitas das minhas pré-concepções sobre positivismo, pós-positivismo e pós-estruturalismo (só para nomear alguns paradigmas) mudaram, ou se não mudaram, pelo menos alguns julgamentos estão em suspenso até análise mais detalhada. E antes de me acusarem de ter sofrido lavagem-cerebral, ou de estar acrítica e deslumbrada, por favor, me deixem explicar. A impressão que eu tenho (e eu posso estar sendo injusta, ok?) é que no Brasil o anti-positivismo disfarça falta de rigor metodológico. A gente tem uma dificuldade tremenda de lidar com números no Brasil, e com pesquisa quantitativa, porque na maioria das vezes nós somos muito fracos em questões metodológicas. E daí acabamos apelando para a metodologia qualitativa, não porque ela é menos rigorosa metodologicamente, mas porque é mais fácil esconder ou maquiar falhas de metodologia e buracos de argumentação numa pesquisa qualitativa que em uma quantitativa.

Vejam bem: eu não estou dizendo que quantitativo é melhor que qualitativo. Eu concordo muito com o Gary Goertz e o James Mahoney quando eles afirmam que a diferença dessas metodologias pode ser entendida como diferenças entre culturas de pesquisa. O que eu gostaria de entender é porque a pesquisa quantitativa é tão incipiente no Brasil. Como eu já disse, talvez a minha hipótese inicial seja injusta, mas dada a minha experiência no campo, ela é a mais plausível na minha cabeça.

E por favor, não vamos baixar o nível da discussão e dizer que os americanos são uns bitolados porque ainda estão no positivismo procurando por leis de comportamento social. Isso não é verdade, e qualquer um que se dê o trabalho de ler a discussão metodológica e epistemológica contemporânea aqui nos EUA consegue perceber que isso não é o caso. A busca por relações de causalidade tem muito mais a ver com a tentativa de filtrar o barulho e tentar isolar regularidades (regularidades que muitas vezes o pessoal que critica o positivismo tenta estabelecer do mesmo jeito) e possíveis generalizações dentro de contextos amplos mais específicos (por exemplo, quais são os fatores que levam a ocorrência de guerras civis na segunda metade do século XX?), visando alguma acumulação de conhecimento, do que descobrir leis imutáveis do comportamento social. e quanto mais eu penso nisso, mais eu me pergunto: e por que isso não seria possivel, ou sequer positivo? Cada vez eu me convenço que a resposta e sim. E cada vez eu me convenço que essa tentativa e melhor do que o escrutínio infinito por detalhes de casos que não nos dizem muita coisa sobre o funcionamento do mundo, e são razos em qualquer exame metodológico mais detalhado (e sim, incluam minha dissertação de mestrado nesse balaio).

P.S.: Cabe dizer que eu não abandonei nem pretendo abandonar a pesquisa qualitativa. Pelo contrário, tenho uma vontade crescente de casar analise quantitativa com a qualitativa, tendo em vista que elas desempenham funções diferentes, mas igualmente importantes e complementares. Mas sobre mixed-methods approach eu escrevo outro dia.