
Lanternas
Quinta-feira, 29/10/09A Tatiana mencionou comigo que talvez fosse uma boa idéia eu participar aqui neste blog, já que a gente divide a nossa vida acadêmica, e parte das questões que eu converso com ela acabam aqui. Talvez fosse também o caso de eu colocar a minha perspectiva, que é a perspectiva de alguém que trabalha com filosofia, neste espaço.
Eu fiquei um bom tempo pensando sobre o que eu deveria escrever aqui, e neste início de ano e de semestre a questão que tem me perturbado mais são as formas de apropriação do discurso filosófico – específicamente das questões epistemológicas. Particularmente, eu gosto de discutir com todo mundo. Seja o motorista da van, o maluquinho na rua, o paranóico no mcdonnalds, a garçonete new-age do restaurante universitário… Todos estes tipos que a gente encontra aqui nos Estados Unidos, e sempre tem alguma coisa para te contar que eles viram no History Channel e que vai, com certeza, mudar o rumo da tua pesquisa. Eu não me preocupo com o rigor epistemológico destes caras, eu gosto de ouvir eles, as vezes o caipira que dirige a van tem mais coisas para te falar sobre os Estados Unidos do que o Weber – ei, não se enganem, o Weber falou com uns caras parecidos com estes caipiras!
Por outro lado, existe uma coisa no ambiente acadêmico que eu acho importante, especialmente para quem trabalha na academia: se chama “se fazer entender”. Dia desses, eu estava trabalhando em um artigo, e eu comentei com a Tatiana que o artigo era interessante: tratava-se de uma tese bastante incomum sobre o trabalho de um determinado autor, tese esta com a qual eu inclusive discordava, mas que poderia ser colocada no ar, deveria ser colocada no ar inclusive, para poder ser devidamente contra-argumentada. O artigo, no entanto, tinha um problema persistente: ele era ilegível para qualquer um que não fosse íntimo do trabalho do autor sendo ali discutido.
A Tatiana argumentou comigo que isto não era um “probleminha”, era uma questão de princípio: não dá para aceitar religião. A coisa tem que ser legível para qualquer um. Espertamente, ela usou como exemplo o texto mais bem construído, técnicamente, que se tem notícia: a introdução da crítica da razão pura.
Chegando na introdução da crítica da razão pura, tu podes ter diversas dúvidas sobre a validade dos argumentos ali apresentados. Tu pode demorar um certo tempo para entender tudo que está em jogo ali. Talvez toda vez que tu leia, tu ache coisas interessantes que tu não tenhas achado antes. No entanto, mesmo que tu nunca tenha lido Kant antes, mesmo que seja o primeiro texto de filosofia que tu leu na tua vida, com algum esforço tu vais entender algo do que está escrito ali. Sobretudo, o autor queria ser entendido. Inclusive por quem nunca tinha lido ele antes.
Talvez o querer ser entendido seja a principal diferença entre alguém que trabalha nas humanas, na academia, e um literário. James Joyce não precisava ser entendido, nenhum poeta precisa ser entendido. Talvez ele queira ser entendido, mas ele não precisa disto. A natureza do trabalho acadêmico, no entanto, é de divisão, de troca de idéias, de transformação e incorporação de influências. Só que isso não é um trabalho muito fácil de ser feito.
Me preocupa uma certa festividade literária no nosso meio. É ótimo tu ser um bom escritor, tu usares isso para tua vantagem quando tu escreves textos técnicos: Sartre e Weber eram escritores magníficos, e nem por isso se escondiam atrás desta ou aquela hipérbole. O problema é quando tu solta a mão na metáfora e esquece que tu também tem que se fazer entender. Existe uma tendência quase autista nas humanas de pegar os elementos mais abstratos, mais crípticos, de determinados autores ou escolas, e ficar repetindo até a exaustão certos conceitos, como mantras. Daí nascem pesquisadores com três anos de pesquisa acadêmica, escrevendo “aforismas”. Existe uma falta de curiosidade, um comodismo e conformismo que me parecem extremamente anti-acadêmicos nestas posturas. Porquê ao usar o conceito-chave, a palavrinha mágica, o que se faz é excluir o contra-ponto, é dizer “se tu não aceitas este conceito, tu aindas não chegou no meu nível de compreensão, então não vou nem falar contigo”, ou “as minhas metáforas são sentidas como o sentimento que se sente no sentido da seta que (sem)te do ar que respira o ser”. E espera-se que alguém possa responder isso?
Voltando ao trabalho em questão. Eu e a Tatiana passamos um bom tempo discutindo isso, porquê a Tatiana argumentava que um texto hermético, fechado para os não-iniciados, não deveria ser publicado. Eu não estava tão certo disso. Talvez até isso tenha que ter exposição, nem que seja para expor a hermeticidade do texto – é uma opção do autor, ele que vá viver com ela depois.
Mas mesmo hermeticidade é diferente de incompreensão. Todos os meios acadêmicos tem seus textos herméticos, são os textos publicados nos Journals, para apreciação dos próprios colegas – os textos que acabam como peso de papel ou infernizando a vida dos bolsistas de doutorado que tem que traduzir aquilo para os alunos da graduação. Nas sociais, consigo pensar em Parsons e Luhmann são exemplos de textos extremamente fechados para os não-iniciados. Na filosofia, a metafísica, é um assunto que em geral é complicado de ser entendido por quem não tem alguma leitura. Mas mesmo os textos herméticos, eventualmente, podem ser entendidos – e nem sempre eles pedem a aderência ao sistema ou o “salto” quase religioso de dizer “ah, sim, eu SINTO a sua metáfora”.
O meu problema é que non-sense passe por complexidade, e que complexidade seja desculpa para preguiça intelectual. Já vi muitos textos complexos virarem verdadeiras colchas de retalhos nas mãos de pessoas que até poderiam ter boas intenções, mas que acabaram transformando autores que diziam “A” em autores que dizem “B” por pura preguiça intelectual ou falta de rigor (o que dá no mesmo, convenhamos).
No fim das contas, existe um compromisso da modernidade que me parece um compromisso muito positivo, que é o compromisso pelo fazer sentido, pelo procurar o entendimento. Não como em uma chantagem, não o “entendimento nos meus termos”, mas simplesmente o diálogo de idéias que não implica em um certo tipo de arrogância intelectual. Tudo bem, existem coisas que precisam de mais tempo para serem ditas, que são interessantes demais para serem colocadas de forma óbvia. Todos nós podemos concordar com isso. Não estou defendendo uma banalização da discussão acadêmica, pelo contrário.
Mas sinto que ainda que por vezes a hermeticidade seja necessária, é imprescindível que a gente aponte quando o hermético só esconde o banal em roupas de marca.
Publicado em Epistemologia, Filosofia, Reflexões | Tagged Academia, Discurso, Jogo de Linguagem, Metáforas, Modernidade |
[...] Janeiro 29, 2009 Eu em tempos difíceis Posted by fabriciopontin under coisas de bolsista, punheta mental | Tags: Academia, Filosofia, Links, Rotina | Como eu vejo a filosofia, lá no blog que era da tati, e agora é meu e da tati, ou não, ou sei lá. Não cabe no blog de filosofia, porque é mais uma coisa “eu acho”. “Eu acho”, sabe-se, é uma coisa com a qual ninguém se importa na filosofia Leiam aqui. [...]
Sigo pensando que hermeticidade é bem diferente de ilegibilidade. Se alguém iniciado em Ciências Humanas não consegue entender um texto publicado em uma revista de Filosofia, o problema é do texto, e este deveria ser corrigido.
Parsons é hermético e complexo mas não é incompreensível. Pelo contrário, é bastante legível.
Mas eu concordo contigo na questão de non-sense passar por complexidade e, pior ainda, por qualidade.
Eu queria mesmo saber quando é que a clareza saiu de moda.
Eu concordo quase plenamente.
Acho que a gentileza com o leitor é fundamental e que quanto mais claro, melhor. A clareza é parte da inteligência didática, da qualidade do escrito.
Também concordo que por baixo de muita coisa obscura reside a profundidade de um pires. Ou a fragilidade de um cristal.
Só não gostaria de cair na opção contrária: o “terrorismo da simplificação”, que Derrida menciona no Limited inc. Tem certas coisas que são difíceis mesmo, não dá pra simplificar muito sem perder o essencial.
E acho que qualquer artigo, se bem fundamentado, pode ir para a publicação. É que as revistas especializadas são justamente o lugar onde pode se dar esse tipo de discussão. Não deve ser angustiante ser especialista em um autor complexo e não ter onde discutir, porque todo mundo quer tudo mastigadinho?
Enfim, concordo que a clareza é uma qualidade, mas não um imperativo. Imperativo é a consistência.
Pois, eu não sou grande leitora de Derrida, devo admitir, mas ele é um dos autores que ao meu ver pecam pela falta de clareza (e. g. “On Cosmopolitanism and Forgiveness”, um livro de quase 100 páginas que beira a incompreensão absoluta).
Sobre a questão do “mastigadinho”: clareza não é oposta á complexidade de raciocínio. Pedir clareza não é edir moleza, e mais uma vez cito como exemplo autores como Weber e Parsons: extremamente complexos, absolutamente claros.
Por ora, penso o seguinte: clareza deve ser sempre acompanhada de critérios, quer dizer, tu tens que estabelecer uma posição filosófica ou alguns conceitos básicos para começar a discutir outro texto e torná-lo intersubjetivamente plausível. Minha pergunta é: Quando um texto é incompreensível ou hermenético? Quando ele se torna assim?
Pensemos, por exemplo, em Wittgenstein. Ele foi um filósofo que sempre propôs clareza absoluta e criticou toda boiada que se emboltava em metáforas. Porém, aí tu pega um cara como o Puntel, que te mostra que Wittgenstein simplesmente é incoerente e escreveu praticamente tudo de forma obscura (estou botando lenha na fogueira…hehe). E aí?
Por outro lado, tu pega Tugendhat e a interpretação dele de Heidegger. Há uma transformação de conceitos e uma tentativa monstruosa em se fazer compreender. Ou seja, talvez, estabelecendo critérios específicos, tu consegues interpretar o texto, mesmo um texto estapafúrdio como o do Heidegger (um pouco de carvão agora).
Resumindo: como tu julgas que um texto é incompreensível? A partir do quê?
[Pausa para as metáforas e metonímias]
Uma moça bonita em roupa exótica não deixa de ser bonita, mas passa a ser, dali em diante, bonita e exótica. Há quem não goste de exotismo, mas chamar o bonito de feio só porque é exótico é um tremendo equívoco.
Marcos: Me parece que de certa forma vc indicou para a resposta da sua pergunta na formulação do seu parágrafo – eu considero que possuir transparência paradigmática e expor/esclarecer os conceitos com os quais se trabalhará um dos primeiros passos na construção de um texto claro. O exemplo do Tugendhat é excelente: ele não trata assuntos bastantes complexos? Sim. Ele não é consistentemente claro? Sim. e principalmente porque ele se preocupa em esclarecer sua posição paradigmática e definir os conceitos com os quais trabalha.
Moche: Você poderia ser mais claro? Pq eu não acredito que clareza e estilo (na sua metáfora, exoticidade) sejam incompatíveis, e em momento algum isso foi sugerido. São aspectos distintos da construção textual, e me parece que se o estilo interfere na clareza, há algo a ser corrigido no estilo. sobretudo em textos acadêmicos, cujo propósito primeiro é estabelecer diálogo e entendimento.
No mais, sua metáfora desvia o foco da discussão. Afinal de contas, estamos falando de clareza, não de mulheres.
Tati
O que eu disse foi: um texto consistente não deixa de ser consistente apenas porque o autor usa vocabulário pouco claro (ou gentil). Há quem não goste de autores de estilo “difícil” (“obscuro” acho uma palavra pejorativa), mas a “dificuldade” não lhes retira a consistência.
A metonímia da mulher era só uma brincadeira rortyana, na qual eu brinco com um exemplo para argumentar pela inexistência de um “vocabulário final”, claro e limpo, que acessaria a realidade “nua”. Todo nosso vocabulário está contaminado desde o início. Portanto, não vejo a clareza EM SI como um valor superior, mas apenas como uma estratégia “gentil” com o leitor que deve ser utilizada por razões ético-pragmáticas, não por uma superioridade metafísico/epistemológica.
“Metaphors allow for the creative transfers of ideas across intellectual realms. (…) However, they are also highly susceptible to misunderstanding and misuse. Open-endedness can devolve into sloppiness or silliness if metaphorical transfer is (mis)applied without thorough attention to the correspondences in the properties and conclusions of the entities beign compared. (…)
Thus the use of metaphors in social science needs to be somewhat guarded; metaphorical richness must be progressively restricted by more precise formulations as research advances. (…)
Real rigor requires tightening the correspondence between the metaphor and the issue at hand.”
SNIDAL, Duncan. The Game Theory of International Politics. In OYE, Kenneth (ed). “Cooperation Under Anarchy” New Jersey: Princeton University Press, 1986.